Moeda Rara
Dobra Pé-Terra
A Dobra Pé-Terra inclui-se no grupo de moedas cunhadas na Idade Média que tem raízes no tipo monetário designado por Dupla ou Dobra, de moedas de valor duplo do normal, emitidas pelos berberes Almóadas no século XII e que acabaram por ocupar o lugar do Morabitino como moeda universal. Aquele tipo monetário viria a “inspirar” os monarcas dos reinados ocidentais a cunharem moeda semelhante mas adaptada ao estilo gótico que marcava a cristandade. Em Portugal, aparece em duas moedas de ouro cunhadas por D. Fernando I: a Dobra Pé-Terra e o Gentil. A inspiração para o tipo de figuras inscritas na Dobra Pé-Terra estava numa moeda de Carlos V, de França, o “Franc à pied”, que tinha o rei, em pé e armado, com a espada erguida.
O tipo Meia Dobra, tanto no módulo como na quantidade de ouro e mesmo no nome, veio a ser copiado por várias nações cristãs, mas adaptado ao estilo gótico que então florescia. Em Portugal está presente na Meia Dobra Pé-Terra do rei D. Fernando, batida no início do reinado e hoje de extrema raridade.
Numisma apresenta aqui em venda uma Meia Dobra Pé-Terra do rei D. Fernando, num magnífico estado de conservação. Praticamente nova, tem relevo excelente e um bom retrato do rei em pé, sob um arco ogival, com armadura, espada ao alto e a mão esquerda sobre o escudo das quinas, como armas nacionais. No reverso, uma grande cruz floreada, com quina central, tudo dentro de um quadrilóbulo, mostrando a influência das moedas francesas contemporâneas. Pesa 2,55g.
Cunhada apenas na Casa da Moeda de Lisboa – o monarca cunhou outras moedas do seu reinado também no Porto e, devido às suas ambições à coroa de Castela, em diversas cidades castelhanas, como Tui ou Corunha – a Dobra Pé-Terra é hoje uma das moedas de ouro portuguesas mais valiosas. Em ouro o monarca cunhou ainda a Meia Dobra Pé-Terra e o Gentil, outra moeda rara, embora de menos peso e menor teor de ouro. As moedas de ouro de D. Fernando são o testemunho de um estilo artístico próprio da idade medieval, o mesmo que levou à criação das catedrais em ogiva. O monarca mandou também cunhar outras moedas, em prata e bolhão, que surgiram a partir de 1369 quando já se fazia sentir na economia os efeitos das guerras com Castela.
O rei D. Fernando subiu ao trono com 22 anos de idade. O cronista Fernão Lopes definiu-o nos seguintes termos: amava a justiça, era prestador e muito liberal; fez muitas doações de terras, amou muito o povo e trabalhava de o bem reger; todas as coisas que mandava fazer eram fundadas em boa razão e justamente ordenadas; desfaleceu quando começou a guerra e nasceu outro mundo muito contrário ao primeiro. A sua morte provocou uma crise dinástica no reino, cuja regência ficou a ser exercida pela mulher do rei, D. Leonor Teles, próxima dos Castelhanos. O tratado de Salvaterra de Magos, assinado entre D. Fernando e o monarca de Castela, D. Juan I, em 1383, estabelecia que caso o monarca português falecesse sem deixar filho varão legítimo, o rei castelhano e a sua mulher, D. Beatriz (filha de D. Fernando I) seriam reis de Portugal. Esta situação não foi aceite pela maioria dos portugueses que, liderados por D. João I e D. Nuno Álvares Pereira enfrentaram e venceram o exército castelhano na batalha de Aljubarrota.


