Moeda Rara - Engenhoso

 

O “Engenhoso” de D. Sebastião: uma raridade de ouro no leilão comemorativo dos 50 anos da Numisma

Entre as grandes raridades da numismática portuguesa, poucas moedas reúnem de forma tão expressiva história, inovação e escassez como o chamado “Engenhoso”, moeda de ouro de 500 Reais cunhada no reinado de D. Sebastião.

O seu aparecimento está ligado a um dos problemas mais antigos da circulação monetária: o cerceio. Esta prática fraudulenta consistia em cortar a orla das moedas de ouro e de prata para retirar parte do metal precioso, mantendo depois a moeda em circulação. O fenómeno era particularmente difícil de combater numa época em que muitas moedas apresentavam fabrico irregular, cunhos desviados ou exemplares mal centrados, facilitando a remoção discreta de pequenas quantidades de metal.

Foi neste contexto que, durante os primeiros anos da regência de D. Sebastião, se procurou encontrar uma solução mais eficaz para proteger a moeda de ouro portuguesa. Após o fim da emissão das espécies de São Vicente, em 1559, e do Meio São Vicente, no ano seguinte, surgiu em 1562 a proposta de fabricar uma nova moeda de 500 reais, de menor diâmetro, com uma orla mais elaborada e tecnicamente mais cuidada. O objetivo era simples, mas ambicioso: tornar qualquer corte imediatamente visível e, por isso, impedir que a moeda cerceada continuasse a circular.

Nascia assim o “Engenhoso”, designação que traduz bem a natureza inovadora desta emissão. Cunhada até 1566, esta moeda representa uma tentativa pioneira de resposta técnica a um problema económico e monetário persistente. A complexidade da sua execução, tanto na abertura dos cunhos como no cuidado exigido durante o fabrico, terá tornado o processo moroso e dispendioso. Por essa razão, a solução acabou por não se revelar compensadora face ao metal perdido pelo cerceio, levando ao regresso ao fabrico normal da moeda de ouro de 500 reais, mais comum no reinado de D. Sebastião.

 

A raridade do “Engenhoso” é hoje indiscutível. São conhecidos apenas quatro exemplares, um número que coloca esta moeda entre as peças mais cobiçadas da numismática portuguesa. Um exemplar passou pela Sotheby’s em 1985, outro surgiu num leilão em Paris, da Argenor Numismatique, em maio de 2007, e um terceiro integrou a coleção A. Huntington. O quarto exemplar pertence à coleção do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro.

A Numisma voltará agora a colocar em destaque esta peça extraordinária. O “Engenhoso” de 1566 aparecerá brevemente no leilão “Abuxarda”, leilão comemorativo do aniversário dos 50 anos da Numisma — meio século de História Numismática, dedicação ao colecionismo e valorização do património monetário português.

Mais do que uma moeda rara, o “Engenhoso” é o testemunho de uma época em que a técnica, a confiança e o valor intrínseco da moeda se cruzavam de forma decisiva. O seu regresso ao mercado num leilão comemorativo da Numisma reforça não apenas a importância histórica desta emissão, mas também o papel da Numisma - Sociedade de Artigos de Numismáticos SA, na preservação e divulgação das grandes raridades da numismática nacional.

 

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